quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Sim e não: a Quaresma e a fé reformada hoje

Viver como fiéis discípulos de Jesus exige tomar decisões criteriosas. 

Por John D. Witvliet*
Originalmente publicado em The Banner, 18 fev. 2011. 
Trad. Eduardo Henrique Chagas 

Nós somos chamados a "julgar todas as coisas" (I Ts 5.21), a "discernir as coisas excelentes" (Fp 1.10). Para ver este processo de discernimento na prática, vamos pensar na história da Quaresma, o tradicional período de 40 dias (sem contar os domingos) de preparação para a Páscoa.

Nossa prática recente 

Muitas congregações na Christian Reformed Church atualmente observam a quaresma, mas de uma forma que parece atípica para a maioria dos católicos romanos, luteranos, metodistas e anglicanos. É uma abordagem que já se refletia em um editorial de 1933 em The Banner, no qual o editor por muitos anos, H. J. Kuiper, descreve tanto um aumento de interesse na, e oposição à observância da Quaresma, e então conclui, firmemente: "cremos que ambas as posições são parciais."

Kuiper dizia não à ideia antiga de que a Quaresma deveria enfatizar muitas disciplinas espirituais, como o jejum. Argumentava que, se fortalecermos nossa piedade durante a Quaresma, não estamos sujeitos a ficar relaxados depois? Não deveríamos ser "sempre abundantes no serviço do Senhor" (I Co 15.58)? As obrigações quaresmais não levam ao legalismo?

Mas ao mesmo tempo, Kuiper dizia sim à importância de um período de preparação para a Páscoa, citando como uma abordagem adequada a tradicional prática reformada de sermões em série sobre os sofrimentos de Cristo.

Pelas últimas três gerações, congregações da Christian Reformed Church têm sido tipicamente acolhedoras a sermões sobre a paixão e morte de Jesus; indiferentes a muita ênfase em disciplinas espirituais, incluindo o jejum e oração; e resistentes a outras tradições que surgiram ao redor da Quaresma: festas de carnaval, consumo de peixe às sextas-feiras e o abandono do uso da palavra "Aleluia" nos cultos do período da Quaresma, até a manhã da Páscoa. É por isso, por exemplo, que a seção de hinos de Quaresma do Psalter Hymnal 1987 tem seu foco quase que exclusivo na paixão e morte de Jesus.

Inovação do séc. IV 

Em parte por causa da informação histórica limitada disponível a Kuiper, este não deu atenção a outra dimensão da Quaresma: a ligação entre a Quaresma e o Batismo. Como estudos históricos recentes demonstram, a Quaresma surgiu quando os líderes da Igreja primitiva estavam aprovando e rejeitando possíveis práticas de ministério à luz dos desafios culturais de seu tempo.

No ano 313, o imperador romano Constantino converteu-se ao cristianismo e tornou legal (ou mesmo preferível) que os cidadãos romanos se tornassem cristãos. De repente, a Igreja tinha muitos Batismos de adultos para celebrar! Mas isto criou um desafio: como a Igreja poderia se assegurar de que as pessoas que queriam ser batizadas estavam levando Jesus a sério? E o que ela precisava fazer para moldar estas novas vidas cristãs? O Batismo, sozinho, não era o suficiente. Era preciso mais para formar estes novos cristãos como discípulos de Jesus.

Assim, a Igreja desenvolveu um curso de preparação para o Batismo de 40 dias; um tempo de estudo da Bíblia, dos Catecismos (isso mesmo, estudo de Catecismos 1.200 anos antes de João Calvino), e disciplinas espirituais que incluíam jejum e oração. Era um programa intensivo de "40 dias de aventura espiritual", ou "40 dias de propósitos" (que não passam de variações dessa ideia antiga). A lógica era que, durante esses 40 dias, os crentes deveriam estar ou se preparando para seu próprio Batismo, ou encorajando alguém que estava se preparando.

Em vez de ser um tempo para focalizar apenas o sofrimento e morte de Jesus, o foco da Quaresma se tornou a nossa união com a morte e a ressurreição de Cristo no Batismo. Romanos 6.3-4 servia como texto-chave: "Ou porventura ignorais que todos nós que fomos batizados em Cristo Jesus fomos batizados na sua morte? Fomos, pois, sepultados com ele na morte pelo batismo; para que, como Cristo foi ressuscitado dentre os mortos pela glória do Pai, assim também andemos nós em novidade de vida."

Em termos doutrinários, isto punha a ênfase não apenas no dom de Deus do perdão (justificação), mas também no dom da nova vida em Cristo e o Espírito Santo (santificação). A Quaresma era um tempo para cristãos novos e veteranos vivenciarem ("exercitarem") os passos básicos da vida cristã: negar-se a si mesmo, voltar-se para Jesus, despir-se da fofoca e do rancor e vestir-se de paciência e compaixão. Assim como os atletas precisam ensaiar jogadas básicas e os músicos precisam treinar escalas, também os cristãos precisam exercitar a auto-negação e a auto-doação em amor.

Em outras palavras, a Quaresma surgiu no que chamaríamos hoje de um "contexto missional". Foi uma criação pastoral para um tempo parecido com o nosso, em que grandes números de pessoas não cresciam na Igreja. A Quaresma foi a forma da igreja dizer "sim" à oferta gratuita da salvação e "não" à graça barata (Batismo sem discipulado).

Reforma do século XVI


Pelo tempo de João Calvino, a memória da Quaresma como um tempo para moldar novos cristãos já havia há muito desaparecido. Batismos de adultos eram raros. Praticamente todo mundo era batizado quando criança. As disciplinas quaresmais ainda eram praticadas, mas muitas vezes eram impostas pela Igreja de uma forma distorcida, como uma forma de barganhar favores com Deus.

Assim, Calvino disse "sim" à prática que ele achou que seu povo precisava: ensino construído em torno do Catecismo. Mas ele disse "não" à prática da Quaresma como irremediavelmente supersticiosa para ter utilidade para seu povo.

O que é melhor hoje?


Então como deveríamos celebrar a Quaresma hoje? Precisamos nos unir aos pastores do século IV, a João Calvino, a H. J. Kuiper e a vários pensadores católicos romanos contemporâneos que vêm estudando a mesma história, fazendo escolhas sábias para promover um discipulado fiel. Nós, também, precisamos dizer "sim" e "não" em resposta a desafios particulares que encontramos em nossos próprios contextos ministeriais.

Em lugares onde a Quaresma está associada quase que exclusivamente com legalismo ou superstição, cristãos reformados serão sábios em seguir a direção de Calvino e dizer "não" à Quaresma. Em vez disso, talvez os pastores devam dirigir suas congregações em reflexões acerca do tema da "liberdade em Cristo".

Em outros contextos, pode haver grande sabedoria em adotar a Quaresma como um tempo identificável de preparação para a Páscoa. Todos nós precisamos santificar nossos calendários e deixar claro que nada no fim ou no começo do ano -- nem feriados, nem o carnaval, nem mesmo as eliminatórias do futebol -- são tão importantes para a nossa identidade quanto a morte e ressurreição de Jesus.

Em lugares missionais, onde desejamos muitos Batismos de adultos na Páscoa, há muita sabedoria em se recuperar a ideia de que a Quaresma não diz respeito apenas ao sofrimento e morte de Jesus, mas também à nossa união com Cristo no Batismo. Pode ser bem sábio o exercitar intencionalmente a nossa nova vida em Cristo com as disciplinas da oração do jejum e do arrependimento -- disciplinas que são tão vivificantes que nós nos apegaremos a elas muito depois do fim da Quaresma. Afinal, muitos de nós vivemos em culturas em que há falta -- e não sobra -- destas disciplinas.

Nós, por vezes, herdamos de nossos ancestrais na fé respostas consolidadas para perguntas-chave. Mas com frequência nós também herdamos modelos para fazer perguntas que agitam as coisas. Como podemos colocar Jesus no centro de como marcamos nosso tempo? Como podemos comunicar a beleza da identidade batismal aos que estão à procura, e fortalecê-la para crentes veteranos? Como podemos praticar disciplinas da vida cristã sem passar a depositar nossa confiança nelas, ou nos tornarmos orgulhosos delas?

Que o Espírito de Deus nos capacite em pleno conhecimento e toda a percepção para aprovarmos as coisas excelentes (Fp 1.9-10).

PARA DISCUTIR



  • Que tipo de culto você associa com a Quaresma? É diferente do culto em qualquer outra parte do ano?
  • O que você pensa sobre a prática de disciplinas espirituais durante a Quaresma, tais como jejuns ou outras formas de abrir mão de algo?
  • Como a auto-negação e a auto-doação em amor estão ligadas à preparação para o Batismo ou à recordação do seu Batismo?
  • É uma boa ideia "adotar a Quaresma como um tempo identificável de preparação para a Páscoa"? Por que, ou por que não?
  • Como podemos colocar Jesus no centro de como marcamos o tempo?


* John D. Witvliet foi Diretor do Calvin Institute for Christian Worship.

4 comentários:

Rev. Virgilio Cezar Torres disse...

Excelente texto, Eduardo. Continue esse excelente trabalho de tradução e publicações. Deus te abençoe.

Rev. Virgilio Cezar Torres disse...

Excelente texto, Eduardo. Continue esse excelente trabalho de tradução e publicações. Deus te abençoe.

Daniel dliver disse...

Excelente texto! Obrigado pela tradução!

Alfrêdo Oliveira disse...

Excelente texto.