quarta-feira, 1 de março de 2017

A Quaresma: uma perspectiva reformada

Nas igrejas protestantes e evangélicas brasileiras, muito por causa da abordagem anticatólica de nossos primeiros missionários, existe uma grande resistência e, na maioria das vezes, muita ignorância quanto aos tempos e ênfases do Calendário Cristão. E, embora não seja tão difícil introduzir, por exemplo, o tempo do Advento (visto que a Segunda Vinda de Cristo é um tema fortíssimo de nossa hinódia e de nosso ideário), por outro lado encontramos na observação da Quaresma um dos maiores desafios aos pastores protestantes de orientação mais litúrgica.


O nome “quaresma” vem do latim, quadragesima, e indica justamente a duração do período: quarenta dias. Quarenta é um número fortemente simbólico na Bíblia:

  • os dias de chuva do Dilúvio (Gn 7.4);
  • os anos de caminhada do povo de Deus no deserto (Nm 14.33);
  • os dias de jejum e oração de Moisés antes de receber a Lei do Senhor no Monte Sinai (Ex 24.18); 
  • os dias de caminhada do profeta Elias, antes de chegar ao Monte Horebe (outro nome para o Sinai – I Rs 19.8);
  • os dias de jejum e tentação do Senhor Jesus, também no deserto (Mt 4.1-2; Mc 1.12-13; Lc 4.1-2).

Todos são exemplos de julgamento, de provação, de aperfeiçoamento do povo de Deus por meio da experiência de estar em total e exclusiva dependência dele.

A ideia de um período de preparação para a comemoração da Páscoa cristã (isto é, a Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor Jesus) é muito antiga na história da Igreja. O primeiro a escrever sobre isso foi o Bispo Irineu de Lyon, que viveu entre os anos 130 e 200, aproximadamente. Era algo comum na sociedade romana o preparar-se para um grande festival, quer religioso, quer secular, com um período de jejum e recolhimento: isto fazia com que a data da celebração fosse ainda mais esperada e comemorada. A disciplina bíblica do jejum, ao encontrar este eco na cultura romana, tornou propício o surgimento do período de preparação para a Páscoa – embora esse período originalmente durasse apenas alguns dias.

Já no ano 325, o Concílio de Niceia, uma das primeiras e mais importantes reuniões de líderes da Igreja da Antiguidade, tratou, entre outros assuntos, da preparação dos novos convertidos para o Batismo. Naquele tempo, a preparação levava três anos e era concluída na Grande Vigília de Páscoa, o principal culto do ano. Uma das determinações do Concílio foi que, na reta final dessa preparação, nos quarenta dias anteriores à Páscoa, os candidatos ao Batismo (ou “catecúmenos”), deveriam passar por um período mais intensivo de instrução, jejum e oração, e toda a Igreja era convidada a participar com eles. É daí que vêm os temas tradicionais de pregação do período da Quaresma: arrependimento, conversão, peregrinação do povo de Deus no deserto, tentação do Senhor Jesus e o sentido de sua Paixão e Morte. Também por esse motivo didático é que se enfatiza tanto, na Quaresma, as disciplinas espirituais: jejum, oração, meditação nas Escrituras, solitude, silêncio, obediência, culto público. São disciplinas a serem aprendidas na Quaresma mas levadas e praticadas por toda a vida. Dos escritores clássicos chamados Pais da Igreja, Atanásio, Cirilo de Jerusalém, Cirilo de Alexandria e Leão I, entre outros, confirmam o papel didático da Quaresma.

Gregório I (c. 540-604), o primeiro Papa no sentido atual do título, foi quem determinou marcar o início da Quaresma com um culto mais austero, relembrando a prática do Antigo Testamento de expressar o arrependimento e a contrição com o uso de panos de saco e cinzas. Daí surgiu o dia que conhecemos como a Quarta-feira de Cinzas. Outras práticas litúrgicas associadas à Quaresma são a eliminação do culto, neste período, dos cânticos de “aleluia” e do hino “Glória a Deus nas alturas”. A ideia é, literalmente, “abaixar o volume” de todos os cultos até que seja a hora de cantar, a plenos pulmões, a Ressurreição do Senhor. Guardadas as devidas proporções, não é o que fazemos ainda hoje ao esperar a entrada do aniversariante em uma festa surpresa?
O Rev. Peter Wilkinson, da 1ª Igreja Presbiteriana de Rutherford, NJ, EUA, impõe cinzas sobre um membro de sua igreja.
A associação negativa que muitos evangélicos fazem com a Quaresma está ligada a um certo legalismo com que gerações mais antigas guardavam esse período. Na Igreja antiga, não havia uniformidade quanto aos dias de jejum, nem quanto à sua intensidade (se absoluto, parcial ou apenas de alguns alimentos). Enquanto alguns grupos o observavam com o maior rigor, outros jejuavam apenas na Quarta-feira de cinzas e na Sexta-feira da Paixão. No Brasil ensina-se a não comer carne durante toda a Quaresma, mas em outros países e culturas, mesmo dentro do catolicismo romano, essa proibição recai apenas sobre alguns dias.

Como cristãos reformados, rejeitamos qualquer superstição ou legalismo que se crie a respeito de dias, épocas e alimentos (relembrando a lição do Apóstolo S. Paulo em Rm 14.5-8). Contudo, observamos o exemplo da Igreja primitiva, e concluímos que pode ser útil para a Igreja hoje o ter um tempo especial, a cada ano, de recordar os fundamentos da fé e da vida cristã, de anunciar arrependimento e conversão de maneira enfática e intencional, de relembrar e renovar os votos do nosso Batismo, de recordar as disciplinas espirituais e, por meio delas, preparar os nossos corações para celebrar, com toda a alegria, com toda a reverência, com a inteireza de nosso ser, os mistérios da Paixão, Morte e Ressurreição de Nosso Senhor Jesus Cristo.

É nesse espírito que eu desejo a todos uma feliz e santa Quaresma.

Em Nome de Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém.

Rev. Eduardo Henrique Chagas
Quarta-feira de Cinzas, 2017.

2 comentários:

Alfrêdo Oliveira disse...

Parabéns pelo artigo elucidativo, em um tema tão negligenciado no ambiente protestante.

Rev. Marcio Retamero disse...

Parabéns, reverendo, pelo texto didático e oportuno para nossos dias. Abraços cariocas.
Marcio Retamero